fogo baixo [extra]: pés de galinha e um breve exercício de pauta

Tem uma informação que não coube no texto enviado em 30 de setembro: pés de galinha são um importante produto brasileiro exportado para a China, onde é um petisco popular. Em 2018, essa era a informação sobre o consumo de pés de galinha no país asiático, noticiado pelo portal Avicultura Industrial:

A China atualmente importa cerca de US$ 1 bilhão de aves por ano de outros países e responde pela maior parte do comércio mundial de pés de galinha – uma renomada iguaria nacional. Só os pés de galinha são responsáveis por 60% do total importado, ou 300.000 toneladas.

Em 2017, o presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) declarou que os chineses pagavam mais pelos pés de galinha do que pelo peito ou coxa de frango – que são os cortes de frango preferidos do brasileiro, juntamente com o coração. No mesmo ano, a exportação do pé de galinha era representativa para os frigoríficos no Espírito Santo: das 250 toneladas exportadas por mês pelo estado, 160 eram de pé de galinha, pela qual os países asiáticos pagavam um valor até 70% maior. Em reportagem da UOL sobre a exportação de carne brasileira (bovina e suína incluídas) em 2021, a informação se repetiu:

Segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), a tonelada de pé vale cerca de 70% a mais que outros cortes da ave e pode chegar a US$ 1.500, dependendo do país de entrada.

Em 2020, o total do rebanho galináceo do Brasil era de 1.479.363.352 animais, sem distinção de galinhas poedeiras e frangos de corte, entre outros (imagino que galos para reprodução também estejam contabilizados nesse número). Paraná, São Paulo e Rio Grande do Sul eram os estados com os rebanhos mais volumosos, segundo a Pesquisa Pecuária Municipal (PPM) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

No segundo parágrafo de outra matéria do portal Avicultura Industrial, publicada em julho de 2021, é feita uma afirmação de que o preço dos pés está alto por causa da exportação para a China e também porque as pessoas estão comprando mais por causa do colágeno. Sendo muito sincera, eu duvido do impacto dessa segunda explicação, por isso reproduzo abaixo apenas o primeiro argumento:

Há alguns anos, o quilo do pé de frango era vendido por menos de R$ 2 nos açougues. Hoje, ele é exportado como uma verdadeira iguaria e a tonelada já vale cerca de US$ 2.700, o que resulta num valor aproximado de quase R$ 15 por quilo. O primeiro motivo para a disparada nos preços é cultural: a China é o maior comprador, pois os chineses já consomem pé de frango como o brasileiro come pipoca, em qualquer lugar, vendo um filme, em casa ou na rua.

O Brasil, aliás, tem registrado seguidos aumentos na exportação de frango: em agosto de 2021, foram 379,9 mil toneladas, ou 4,8% a mais que no mesmo período de 2020. Em julho, o aumento havia sido ainda maior, de 16,4%. Só a China, principal destino do frango brasileiro, recebeu 57,4 mil toneladas em agosto. Os dados são da ABPA.


Como a bola está quicando e eu não tenho tempo hábil para ir atrás de mais dados e entrevistas, deixo aqui este meu breve exercício de pauta. Quem fizer, me manda um alô pra eu divulgar na próxima newsletter? 🙃

[foi um exercício muito similar ao que fiz com o salseiro do fragmento de arroz, aliás]

A partir dos dados que expus acima dá pra iniciar uma apuração com as seguintes perguntas-guia: 

  1. Há mesmo mais pés de galinha para vender nos supermercados e açougues do Brasil em 2021? Por quê?

  2. Se há mais oferta de um produto que há pouca demanda no mercado interno brasileiro, o que faz o preço do pé de galinha estar tão alto? 

Minha hipótese: recordes de produção fazem com que tenha mais produto não só para exportação, mas também para o mercado interno; e o preço de qualquer carne – até mesmo um corte que o brasileiro não queira consumir – está elevado por causa da inflação. 

Informações que seriam interessantes de constar em uma reportagem sobre pés de frango e seu consumo no Brasil:

  • Quanto desse 1,4 bilhão de aves segundo o levantamento do PPM-IBGE de 2020 são frangos de corte, ou seja, que serão vendidos como carne e miúdos?

  • Qual foi o volume total de frango exportado pelo Brasil para outros países? Quanto deste volume foi de pés de frango? Temos como saber quais os países além da China? Quanto isso representa em receita? 

  • Desde quando o Brasil exporta pés de frango em um volume considerável? O que era feito com esses pés de frango antes de eles virarem um produto valorizado pelo mercado externo? Viravam nuggets, ou seja, ultraprocessados? 

  • Houve algum período em que o consumo interno de pés de frango foi maior do que em 2021 no Brasil? Caso sim, qual era o contexto econômico do período?

Como entrevistados, procuraria um engenheiro agrícola ou agrônomo; o presidente da ABPA; algum técnico responsável do PPM-IBGE para contextualizar dados e tirar dúvidas; um economista e, se possível, um historiador, antropólogo, sociólogo ou gastrônomo que pudesse falar sobre o consumo tradicional destas partes "menos nobres" de frango no Brasil, como na cozinha caipira paulista e mineira e por colonos no sul do país.


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